Page 1792 - Telebrasil Noticiário
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ciência relativa do segundo, em dado momento, quer em têrmos operativos, quer cm
capacidade de mobilizar poupanças efetivas da coletividade para investimento. A
experiência de nossos dias demonstra que quanto mais capaz foi uma nação de de
senvolver a livre emprêsa, no mundo democrático, mais próspera se tornou.
Tentemos avançar um pouco nossa análise focalizando o problema da ener
gia elétrica no Brasil, para dela recolhermos lições aplicáveis a outros setores. Se é
correta a observação de que a estatização de serviços de eletricidade entre nós tem
sido motivada, basicamente, pela incapacidade financeira dos empresários privados,
deveriamos aceitar a conclusão de que, uma vez readquirida por êles a necessária
capacidade de investimento, devesse êsse setor voltar à responsabilidade da emprêsa
particular. Não é difícil perceber-se que, atingida uma razoável estabilidade mone
tária, o mais justo e eficiente processo de captura de capitais para investimento na
eletricidade estará na venda de ações ou obrigações ao público em vez de cobrança
de impostos especiais para investimento elétrico. Essa venda de ações estará natu
ralmente condicionada à garantia de uma razoável remuneração do capital, atra
vés de uma política tarifaria realista, que, num clima de estabilidade monetá
ria, é de aplicação fácil. Será também condicionada á existência, no País, e, mais
particularmente, no Estado ou na Região a ser servida pela eletricidade, de pou
panças razoáveis, em busca de aplicações permanentes e seguras.
Essa última condição nos indica que o processo de intervenção estatal no
campo da eletricidade como na maioria das indústrias de base, deve ser reversível.
Teve justificativa aceitável quando não havia nível de renda “per capita” e de pou
panças adequadas, mas não mais se justificará quando os excedentes de ren
da puderem atender ao autofinanciamento. Uma análise mais profunda dêsse
tema demonstrará que é socialmente injusta a capitalização estatal, por meio
de impostos em setores como da energia elétrica, quando a região tiver condi
ções de renda que permitam o financiamento da expansão de seus serviços in
dustriais de utilidade pública pelos usuários dêsses serviços. Essa discussão nos
leva a concluir que o tolerável seria uma intervenção estatal na fase pionei
ra da região, como instrumento de “demarragem” de um processo de indus
trialização, feita com os cuidados necessários e a intenção de tornar-se um
dia reversível, isto é, de voltar a ser de responsabilidade da emprêsa privada,
aberta à participação dos consumidores. Para isto, tal emprêsa deverá lutar por
manter os mesmos índices de produtividade por que lutaria a emprêsa privada.
Há uma fase do desenvolvimento em que a construção de usinas e sistemas elétri
cos, por exemplo, é um pesado ônus para a coletividade. Quando, entretanto, um
povo adquire um certo grau de riqueza verifica que a energia elétrica mais cara é
a inexistente, aquela que impede a expansão de tôdas as atividades econômicas. Êste
comentário no momento em que se instala a Eletrobrás, com tôdas as caracterís
ticas de emprêsa estatal fracassada, deve ser considerado como um depoimento me
lancólico de quem prevê, sem a menor sombra de dúvida, o destino lastimável do
suprimento de eletricidade no Brasil, pelo menos enquanto não se revelar algum
“Gosplan Caboclo” que porventura exista na imaginação dos que manipulam o de
sespero do povo como instrumento de implantação do comunismo no Brasil.
CAPITALISMO NO MUNDO DA RIQUEZA
Vamos analisar mais adiante outros aspectos das relações do Estado e da Em
prêsa industrial, no âmbito da democracia que sonhamos consolidar no Brasil. Faça
mos, entretanto, uma pequena digressão, para tentarmos trazer a nosso argumento
alguns conceitos de uma grande lição de Von Mises, que precisa ser aprendido e in
cutida no âmago do pensamento de nossas classes dirigentes, para que se libertem
de dúvidas, perplexidades e injustificados complexos de culpa:
“O que caracteriza o capitalismo moderno é a produção em massa des
tinada ao consumo das inassas”.
Por isto, êle se define, no estágio atual da tecnologia e da vida política, como
o sistema econômico socialmente mais justo, que, para progredir, exige continuado
aumento do “standard” de vida das massas consumidoras. O néoliberalismo capita
lista longe de. transformar o homem comum em proletário, e tentado e finalmente
forçado a elevá-lo ao nível social do burguês abastado, porque, para se expandir e
sobreviver, exige o progressivo enriquecimento das massas consumidoras. Esta é
uma situação completamente diferente da existente nos primórdios do capitalismo,

